Eis uma realidade incontestável, quer para os crentes, quer para os pagãos: todos nós morreremos, estamos “de passagem” neste mundo.

Somos todos peregrinos e forasteiros, como diz S. Pedro em II Pe 1, 11, por esse motivo devemos combater contra tudo aquilo que nos mantém presos ao pecado. A nossa primeira peregrinação é justamente a vida!

Neste “rápido segundo que passa”, dizia Sta. Terezinha, temos apenas hoje para amar a Deus. Sendo estrangeiros nesta terra, devemos viver para amar a Deus, servi-Lo e a Ele sermos fiéis. Esse é o sentido da vida: “Caminhando entre as coisas que passam, abraçar as que não passam”(Missal Romano, pg. 129). Por isso peregrinamos, para vivermos a experiência da Eternidade ainda neste mundo. Peregrinar é antecipar o Céu na Terra.

O Povo de Deus é Peregrino.

Vemos essa realidade prefigurada na procissão da Santa Missa. Nela vemos os acólitos com a cruz processional, com o turíbulo queimando incenso e perfumando a nave central da igreja, portando velas, vemos o sacerdote – o próprio Cristo, cabeça da Igreja – caminhando nessa procissão, de mãos juntas e olhos voltados para o Altar.

Esse é um sinal daquilo que somos como Povo de Deus, aqueles que caminham para o Céu e como com os discípulos de Emaús, Jesus caminha conosco.

Desde os primórdios bíblicos, já no livro do Gênesis, vemos Abraão partindo e vivendo como peregrino em Gerar (Gn 20,1), partindo e vivendo na terra dos Filisteus (Gn 21,34) em Cariat-Arbe (Hebron) ele diz “Sou no meio de vós um simples hóspede e estrangeiro” (Gn 23,4). Vemos nesses trechos bíblicos que ser peregrino está no Sangue do Povo de Deus.

No livro do Êxodo vemos os Hebreus, sob o comando de Moisés que estava sob as ordens de Deus, peregrinando no Deserto por 40 anos em busca da Terra Prometida, pois o Próprio Yahweh havia dito “Eu me comprometi com eles a lhes dar a terra de Canaã, a terra onde levaram uma vida errante (de peregrinos) e habitaram como estrangeiros.” (6,4).

A peregrinação é uma constante na vida do Povo de Deus. Mesmo tendo chegado à Terra Prometida, ainda assim eles se vêem como estrangeiros e peregrinos “Diante de vós, não passamos de estrangeiros e peregrinos, como todos os nossos pais. Nossos dias na terra são como a sombra, sem que haja esperança.” (I cr 29, 15).

Como podemos ver no versículo acima, a consciência de não pertencer a nenhum lugar nesta terra é a tônica da fé, pois a verdadeira Terra Prometida é a presença de Deus. É essa consciência que fundamenta a ação de peregrinar, não pertencemos a este mundo, aqui estamos de passagem.

A verdadeira peregrinação

Para nós cristãos, o ato de peregrinar nos introduz em uma dinâmica ainda mais profunda, pois para que alcancemos a Terra da Promessa precisamos antes percorrer as estradas deste mundo.

Viver aqui, mas com os corações elevados ao alto! Ao visitarmos lugares sagrados em peregrinação, precisamos ter em mente que a verdadeira peregrinação é ao nosso interior. O lugar mais sagrado é o nosso coração, lugar onde Deus habita em potência e em presença!

Peregrinar é mergulhar no nosso interior, ajudados pela atitude exterior de colocar-se à caminho. Por isso é tão importante visitarmos os lugares sagrados, pois eles nos apontam para a realidade mais objetiva: Deus!

É Deus quem nos quer peregrinando!

Antes mesmo de ser uma viagem de férias ou a realização de um sonho pessoal (E isso é muito bom!) peregrinar é um caminho ascético, um itinerário que o Próprio Deus, em sua infinita bondade e misericórdia, traçou para nós. Mesmo que tenhamos planejado, desejado viajar, conhecer determinado santuário; Deus é o ator principal, pois a sua Vontade manifesta-se em sua ação providente de lhe permitir chegar até aquele lugar santo.

É Deus quem nos coloca naqueles lugares, pois ele quer ter livre acesso ao nosso coração e se permite encontrar nesses lugares ” por causa da dureza de vosso coração” (Mt 19, 8), porque Ele nos conhece e sabe que precisamos de estímulos externos para adentrarmos em nosso santuário interior.

Não pense que você voltará da mesma forma ao sair em peregrinação, Deus agirá em seu coração porque Ele te ama e te quer vivo, não somente uma vida natural e biológica.

 “A glória de Deus é o homem vivo”, disse Sto. Irineu. É desta forma que Deus te quer vivo, mas vivo em abundância (Jo 10,10), vivo em plenitude, vivo para a Vida Eterna. Por isso ele te faz peregrino!